
Eu que não gosto de tirar fotografias, e muito menos de ser fotografada, dei por mim com vontade de tirar esta foto.
Veio-me à memória o desafio do meu professor de APS (A Arte de Pensar e de Sentir) e comecei a cogitar no seguinte:
- Quantos anos terá este ninho?
- Quantas ninhadas de passarinhos já acolheu até agora?
- Quantos voos de ida e volta farão os pais para alimentar as crias, até chegar o momento de as ensinar a voar?
Este último pensamento ocorreu-me devido ao conto “O Ladino”, de Miguel Torga, que a Dra. Marisa nos apresentou de forma enfática e teatral, com que habitualmente nos presenteia e cativa a todos.
Como referi logo no início, eu não gosto de fotografar e, por isso, pedi ajuda à minha nora Sandra para ser ela a fazê-lo.
No momento em que estava de nariz no ar, à procura do melhor ângulo para captar a imagem, vem um senhor de tez morena e mochila às costas, a descer a avenida em marcha acelerada.
Quando chegou debaixo do ninho, parou, juntou as mãos em forma de concha, unindo os dedos mindinhos e as palmas das mãos. Olhou para cima, a fingir que estava a amparar algum passarinho, e sorriu para mim.
De imediato continuou o seu passeio em marcha acelerada.
Chamei: “Senhor, Senhor…”, mas ele não parou… e falou qualquer coisa numa língua que não decifrei. Deduzi que provavelmente seria estrangeiro.
Fotografia, arte de narrativas visuais
Fiquei um pouco triste, pois eu pretendia que ele voltasse a fazer a mesma pose, para ficar com esse gesto na foto.
Jamais esquecerei aquele belo momento.
Por tudo isto, penso que a arte de fotografar vai muito para além do simples registo técnico. É uma poderosa arte de narrativas visuais, capaz de contar uma ou mais histórias, evocando memórias, emoções e interações universais.
Um texto sensível que transporta o poder e a beleza das pequenas coisas.