Se considerarmos que arte é uma forma de comunicar emoções que podem provocar no destinatário diferentes reações / sentimentos; se entre estes estiverem satisfação, estranheza, espanto, felicidade, arrepio ou nojo, cumpriu-se a função da obra?

Farão sentido obras como Comedian de Maurizio Cattelan ou a Fonte de Duchamp? É certo que provocam discussão e a maioria insurge-se contra elas, mas é verdade que, esta última, revolucionou a arte ao dar importância à ideia em detrimento da beleza, introduzindo o conceito de ready-made (objeto já feito).

E assim um urinol passa a ser designado por “Fonte”. Surge integrado no movimento do Dadaísmo, que é uma crítica à Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Como sabemos, as diferentes artes servem para alertar, chamar a atenção e muitas vezes contestar o que está mal no mundo e na sociedade ou simplesmente para serem fruídas ou nos darem prazer.
Trem de ferro
Também na literatura temos seguidores deste movimento, nomeadamente o escritor brasileiro Manuel Bandeira, que enfatiza a importância da palavra em detrimento do seu significado. É neste contexto que surge trem de ferro.

[imagem copiada daqui]
Os primeiros versos, “café com pão / café com pão / café com pão”, a sugerir o andamento sequenciado do comboio numa viagem pelo Brasil, transformam o quotidiano e a melodia em poesia cheia de musicalidade e ritmo. Se olharmos para o texto, mesmo antes da leitura, a forma já é em estrofes enfileiras e longas de versos curtos a sugerir as carruagens de um comboio.
O objetivo da obra de arte
Voltando um pouco atrás à definição de arte, vem-me à memória uma visita de estudo ao Centro Cultural de Belém com alunos do 9.ºano. Perante uma vitrine que exibia vidros partidos e lâminas (não me recordo do autor da peça) um aluno desabafa: “é estranha e causa-me arrepios”. Foi essa a emoção sentida pelo aluno e eu neste momento recordo este episódio porque me fez questionar sobre o objetivo da obra. Será que foi cumprido?
A fruição de uma obra depende da nossa sensibilidade e de nos interrogarmos sobre o porquê de ela ter direito a estar num museu de renome. Quantas vezes me questionei ao visitar museus de arte contemporânea sobre determinada obra. Alguém me disse em certa altura: “olhas, observas e gostas ou não gostas. Podes ter aí a resposta para as tuas dúvidas”. Assim tenho feito ao longo da vida.
Será que foi definido o conceito de arte — ou o caminho foi tão sinuoso que nada se aproveitou?