A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, foi uma obra que me marcou e que desde as primeiras páginas me emocionou e foi difícil conter as lágrimas que afloraram várias vezes aos meus olhos. Quando o tempo corre e o envelhecimento nos apanha, mais sensíveis ficamos e, talvez, por isso este livro me tenha tocado tanto.

O Senhor Silva, um barbeiro de 84 anos acabara de perder Laura, a sua esposa, companheira de uma vida e por quem nutria um amor sem fim. Depois da sua morte vai para o lar “feliz idade”: “a Laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e álbum de fotografias”.
Aquilo a que vamos assistir é o contrário do que o nome sugere. Silva não se consegue adaptar ao sítio e encontra-se desolado e cheio de raiva por ter sido colocado ali, deixando a sua casa, o local das suas memórias com a sua Laura. A sua ausência é cada vez mais avassaladora e considera que é injusto manter-se vivo. “Com a morte também o amor devia acabar”
Envelhecimento e solidão
Os idosos são muitas vezes abandonados, como numa antecâmara para a morte, por isso a solidão e o normal envelhecimento são um dos temas desta obra. Embora a vida seja cada vez mais longa, sente-se o declínio físico e a amargura instala-se. Neste sítio temos duas alas: os da esquerda, com vista para o cemitério que, sem esperança, aguardam apenas a morte para cederem a cama a quem está em lista de espera; na ala direita, com vista para o jardim, ficam os que ainda têm alguma esperança de vida.
É uma narrativa muito mais de sentimentos do que de ação e vamos conhecendo os seus companheiros de infortúnio: personagens reais ou fictícias. Surge-nos o Esteves, uma projeção de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, que alega que o autor se baseou nele para escrever “Tabacaria” e a literatura preenche o vazio e a solidão.
Nesse contexto surgem as personagens femininas Leopoldina e Marta que dão aso a brincadeiras e por momentos há um regresso às traquinices da infância. Enrique, o espanhol, que queria ser português — e percebemos que todos buscamos o outro porque não nos revemos naquilo que somos. Os médicos e enfermeiros usam um tom paternalista quando lhes dirigem a palavra. Isto para referir apenas algumas.
Também surgem momentos de compaixão e ternura quando o Silva escreve a dona Marta, fazendo-se passar pelo marido, pois esta esperava ansiosamente pelo carteiro à espera de cartas que nunca chegavam.
Deus, Pátria e autoridade
A questão religiosa também é abordada, onde a personagem se considera refém de condicionalismos sociais — Deus, pátria e autoridade —, não deixando de haver referência ao futebol, nomeadamente ao Benfica. Sente-se, também, através de uma estatueta da Virgem Maria, sobre uma nuvem e ladeada por pombinhas, que ele trata por “mariazinha”. Foi-lhe oferecida e parte-a num momento de raiva, mas vai estando presente ao longo da obra, criando alguns momentos de humor, que também os tem.
Através das memórias da personagem vamos conhecendo a sua culpa de ter vivido passivamente durante a ditadura de Salazar e nunca a ter questionado e enfrentado. Também o vemos, em sonhos, a ser devorado por pássaros negros como uma forma de exorcizar o seu tormento.
Ler e sentir
São vários os temas que se entrelaçam nesta obra de linguagem intensa e repleta de metáforas, a começar pelo título. As identidades individuais diluem-se, perdendo voz, porque já não interessa ouvi-las. Até a opção por uma escrita sempre com minúsculas pode reforçar essa ideia de apagamento.
Muito mais haveria a dizer sobre esta obra tão intensa e imperdível, mas prefiro deixar-vos o prazer da descoberta: cada página pede para ser lida, relida e, sobretudo, sentida.

Este é o primeiro texto de uma série sobre livros que vale a pena ler. O segundo recomenda a leitura de O Velho e o Mar.
Boas razões para este livro sair da lista de espera das minhas leituras. Obrigado Elisa.
Aí está um livro que me deixou em lágrimas.
A ACERT fez a dramaturgia desta obra e representou-a . Muito boa.