Na aula de A Arte de Pensar e de Sentir (APS) sobre o Dilema do Trólei, o professor solicita argumentos que determinam a escolha de uma de duas ações propostas. Os alunos, com alarido e boa disposição, respondem. Fazem apelo à emoção para evitar tomar uma decisão. Sentem-se presos. Tartamudeiam para formular um fundamento lógico-racional que justifique a ação escolhida.
Guiados pela emoção, declaram uma tomada de decisão. Outras vezes, sentimos que não há escolha possível. Como um maestro, o professor sorri, abre os braços e, com o dedo em riste, rege a participação efusiva dos alunos, exigindo rigor na resposta.
É no meio deste burburinho que nos interrogamos e refletimos. Nas escolhas que fazemos, damos mais importância a uma perspetiva consequencialista, beneficiando o maior número de pessoas? Ou optamos por uma ética deontológica, valorizando o dever? A intuição e a emoção orientam a decisão? Ou, perante um dilema, preferimos não agir?

Os dilemas de Aida
A tentativa de resolução destes problemas esgota rapidamente o tempo da sessão. Assim, chegamos à última, mas não menos aguardada, etapa: a escuta musical. No seguimento do trabalho desenvolvido na aula, desta vez, somos premiados com o fim da ópera Aida, de Giuseppe Verdi, com o dueto Ó terra, addio, em que Radamès paga com a vida o caminho que seguiu.
Ainda assim, perdoe-me o “maestro”, o dueto de Radamès e Aida, Pur ti riveggo, do III ato, seria também um trecho interessante, por se sentir o pulsar da indecisão.
Nesta ópera, as personagens, determinadas ou enfraquecidas, enfrentam um impasse entre a lealdade ao amor e ao seu povo. Nesse excerto que proponho, Radamès revela a Aida a resolução do seu conflito moral: deseja honrar o seu dever como general do exército egípcio e liderar a guerra contra os etíopes.
Pur ti riveggo
Assim, Radamès segue a corrente deontológica. No entanto, convence-se de que pode cumprir a sua decisão sem renunciar ao seu amor. Convencido da sua vitória, declara à sua amada — escrava da filha do faraó egípcio — a intenção de pedir ao faraó, como recompensa pela sua vitória sobre o exército etíope, a liberdade e a mão de Aida.
Aida, apaixonada por Radamès, filha do imperador etíope Amonasro, feito prisioneiro no Egito, confronta-se com outro conflito: ceder às razões do coração, fugindo com o seu amado, ou salvar o seu povo do domínio do opressor, tal como seu pai lhe rogara.
Neste encontro, Radamès faz juras do seu amor. Os amantes sonham com o paraíso onde só o amor é rei. Preparam a fuga. Aida, apesar da sua felicidade, sente o apelo do dever patriótico e deixa escapar a pergunta que salva o seu povo.
Radamès, dominado pelo sentimento, revela-lhe a rota do exército egípcio e cai na desonra porque trai o seu povo. Aida sacrifica o seu amor em favor de um bem coletivo, contribuindo para a vitória e felicidade do povo etíope.

Os alunos em APS, como as personagens da ópera, enfrentam dilemas. Escolhem caminhos trilhados pela emoção. Hesitam e vacilam. Justificam as escolhas. Avaliam as perdas. Regem-se por teorias e éticas de toda a ordem, por deveres e princípios. No entanto, não perdem de vista o bem-estar social, nem menosprezam os direitos individuais, reconhecendo que, infelizmente, toda a decisão envolve perdas.