Na sessão de 6 de novembro de 2025 de “A Arte de Pensar e de Sentir”, comparámos vários Mundos — ou várias Janelas para o Mundo. As janelas das canções “Imagine“, “What a Wonderful World” e “A Change Is Gonna Come”, nas vozes de, respetivamente, John Lennon, Louis Armstrong e Sam Cooke. E a janela de “O Principezinho“, um livro de Antoine de Saint-Exupéry.
Foram lançados vários desafios. Um deles: escrever um (pequeno) texto de resposta à pergunta: “O deserto é o melhor sítio para pensar ?”.

[Ivan Kramskoi: Cristo no Deserto (1872)]
ANTÓNIO LOURENÇO aceitou o desafio:
Confrontado com a questão O deserto é o melhor sítio para pensar ?, aqui deixo a minha reflexão:
Sim.
Mas só se imaginarmos que dentro de nossa casa há um deserto; que dentro da nossa cidade há um deserto; que dentro da nossa região/país há um deserto… e que sempre que o queira me possa refugiar lá.
Despido de qualquer pretensão, acredito que Sócrates, Platão, Aristóteles,… foram grandes pensadores. Podemos imaginar que Sócrates pensava durante o percurso que fazia diariamente entre o Pireu e a Ágora de Atenas; podemos imaginar que Sócrates pensava, na Ágora de Atenas, com os seus pares e com Platão; podemos imaginar que Platão pensava, na Ágora de Atenas, com os seus pares e com Aristóteles…
Quem foi mordido pelo bicho do pensamento cultivou, a posteriori, A Arte de Pensar, julgo. E esta Arte tem necessidades e manifesta-se em diferentes contextos — digo: quando se está só, quando se está com a família, quando se está com amigos, quando se está com os seus pares, quando se está com animais, quando se está com árvores, quando se está com coisas… e quando se está com tudo isto…
Conclusão:
Os seres pensantes pensam tanto mais e melhor quanto mais conhecerem os pensamentos dos outros.
E isso acontece aqui e agora…
Qualquer lugar é o melhor sítio para pensar, muito embora o mistério/encanto do deserto nos possa levar a pensar que ele é o melhor.
Mas, contemplar o vasto mar, o imenso céu azul, a tira de asfalto enquanto conduzimos, não lhe fica atrás. Diferentes cores e formatos, mas o mesmo ambiente, propício à coisa.
Processo semelhante acontece com a prática da meditação, também ela muito exigente no que respeita ao local e ruído circundante.
Para concluir diria que pensar, embora possível em qq ambiente, resultará melhor longe do ruido dos Media, das redes sociais, das correrias diárias. Pensar (bem) é incompatível com uma sociedade em que tudo é demasiado rápido (fast food, fast fashion, fast o raio que os parta) …
Pensar no deserto…, ou será o deserto que nos pensa. As areias pedem-nos as pegadas e os pés enterram-se pelo peso. Pensar é um ponto de interrogação que nos empurra e abre espaços onde falamos do tempo sem tempo e com as areias da nossa vida, vamos criando o nosso caminho.
Será o deserto o lugar ideal para este pensar? Não necessariamente, quanto a mim. Tal como em “O Principezinho”, o deserto é o nosso interior com o qual precisamos de nos confrontar para seguir em frente.
O espaço físico, parece-me, não é, contudo, relevante.
O deserto será o melhor sítio para pensar?… Imagino que esse pensar tem o sentido de meditar… Nunca estive no deserto o tempo suficiente para poder dizer que sim. Lê-se em escritos vários que sim, que o isolamento e a ausência de distrações é favorável à meditação.
A meditação é um peregrinação interior que pede esse alheamento absoluto ou quase absoluto. E, nesse sentido, eu direi que os melhores sítios para pensar são lugares onde é possível estar a olhar para o horizonte de mar, sem mais nada que nos possa acordar daquela hipnose, que sempre comparei à peregrinação.
Suponho que podemos alcançar o mesmo estádio de reflexão, a olhar o fogo, seja numa lareira, seja numa fogueira. Mas exige a mesma ausência de outros factores de distracção.
Dirão agora que esta é apenas uma opinião subjectiva. É verdade. Simplesmente é algo que já experimentei e cheguei ao estado que alguns de vós dizem que é preciso alcançar no deserto, onde o essencial é o alheamento exterior. Não pratico Yoga, de forma que preciso do silêncio e de alguma coisa que não me surpreenda o olhar. Foi o que consegui, muitas vezes, olhando o horizonte de mar. E consigo fazê-lo durante horas seguidas.
O fogo (na forma de lareira, bem-entendido), indutor do soltar do pensamento e de longas meditações? Definitivamente, sim!