
Abri o WhatsApp e lá estavas tu! O teu sorriso de alma aberta cheirava a primavera! Apesar de não haver rosto, as palavras escritas eram entendimentos que me segredavam uma intimidade que vozeava em silêncios criativos diálogos e tudo era dito sem nos ouvirmos. Assim, prossegui adivinhando o que julgava importante e o nosso abraço constante e certo eram as SMS recíprocas.
O meu olhar perscrutava uma resposta célere que era instantânea e que, sem perda de tempo, sentia a magia do beijo sem toque.
A tecnologia impõe-nos a pressa, a satisfação instantânea dos corpos ausentes. Com a mesma pressa a ausência e o distanciamento se impõem. Afinal é estranho como as palavras tanto nos podem aproximar como nos podem afastar.
O WhatsApp tem todo o mundo dentro dele, mas não é nada. Culpa? Talvez dos amantes que o vão enchendo de palavras com o seu vazio!
Saio do WhatsApp e um leve sorriso recorda-me que o amor vence o tempo na medida em que não há um tempo circunscrito para amar, nem fórmulas mais ou menos apressadas para o amor e, sobretudo, as palavras precisam da sonoridade dos lábios, do brilho do olhar, do toque das mãos a desenharem uma real presença de quem ama.
Seriam estas palavras uma hipotética carta de amor? Seria ela “ridícula”?
Uma coisa é certa, se Fernando Pessoa vivesse aqui e agora, certamente acabaria o seu poema — magistral na voz de Bethânia — dizendo que todas as SMS de amor são ridículas, mas que mais ridículos são os que nunca escreveram uma SMS de amor, apesar de tudo.


[Texto escrito como resposta a um dos desafios colocados em sessão de A Arte de Pensar e de Sentir]

[Elisa Rodrigues também escreveu sobre o tema]