Os deuses castigam quem quer saber?

Depois de, na sessão de 20 de novembro de 2025 de A Arte de Pensar e de Sentir, termos analisado os mitos de Pandora e de Eva, na perspetiva do conhecimento, dedicámos a sessão da semana seguinte ao mito de Prometeu. O grande “pecado” de Prometeu foi ter roubado o fogo aos únicos possuidores dele (os deuses) para o dar aos seres humanos. Também ele escapou ao castigo divino — e, entre outras, voltámos à questão: os deuses castigam quem quer saber?

Os deuses castigam quem quer saber?

    Adotando o ponto de vista de Prometeu, ELISA Rodrigues respondeu à pergunta:

    Sou Prometeu e tenho um desabafo a fazer: roubei o fogo aos deuses para o dar aos humanos, pois sempre fui um titã seu defensor.

    O meu objetivo era que a humanidade atingisse o conhecimento, que é um conceito muito amplo e imprescindível para a evolução do homem, pois é através dele que podemos resolver problemas, interpretar o mundo que nos rodeia e inovar. Ele é a base da civilização humana, pois… o que seria de nós sem a agricultura, a ciência, a escrita, a cultura, as tecnologias diversas, entre tantos domínios do saber?

    Há vários tipos de conhecimento, mas irei apenas referir o científico — que se baseia em métodos rigorosos, testes, experimentação e é objetivo e verificável — e o filosófico, que tem por base a razão, a reflexão e o questionamento crítico e busca compreender os fundamentos da realidade, do ser, do saber e dos valores.

    Por tudo o que expus anteriormente, não merecia ser castigado, mas há um preço a pagar por desafiar as ordens divinas. No meu caso, fui amarrado a uma rocha e assim permaneci durante gerações.

    Valeu a pena? Sim, porque permiti ao homem a busca do saber e isso foi, para mim, um grande desafio e a consequência que tive de enfrentar.

    Concluindo, os deuses não querem castigar quem quer saber, mas colocar-lhes desafios e dificuldades a serem ultrapassadas.

      Os deuses, o fogo, o poder, o conhecimento

      Como mostra a imagem acima inserida, foram propostas outras questões:

      • o que distingue poder legítimo de poder perigoso?
        Porque o fogo/o conhecimento dá poder, ainda que possa ser perigoso nalgumas circunstâncias.

        Segundo VITOR Rodrigues, poder legítimo e poder perigoso não são necessariamente distinguíveis. Veja-se o caso dos ditadores atuais que, tendo ascendido ao poder pela via eleitoral/democrática, se torna(ra)m perigosos cerceadores das liberdades e até assassinos…

        CONCEIÇÃO Moura Aguiar distingue-os (e relaciona-os) assim:

        O poder legítimo é conferido através do voto popular, direto e universal, que se pode transformar em poder perigoso sempre que assume a forma ditatorial. Ao longo da história temos tido vários exemplos, como é o caso do partido nacional socialista, na Alemanha, que acedeu ao poder com um discurso dirigido às massas, apoiando-as, e se tornou um flagelo para a humanidade.
        Conclui-se que o poder é perigoso dependendo das mãos em que se encontra e da forma como é exercido. O poder legítimo acaba por se metamorfosear: o poder perigoso pode ser um corolário de um poder legítimo mal exercido.
      • o conhecimento deve ter guardiões?
        Porque os deuses parecem ser os seus únicos guardiões, dando-o (ou negando-o) aos Homens.

        VÍTOR respondeu com a canção de Manuel Freire “não há machado que corte a raiz ao pensamento” …
      • é mais perigoso antecipar o futuro ou arriscar?
        Prometeu (o prefixo Pro significa antes, anterior a…) é aquele que pensa antes (de agir); o seu irmão Epimeteu (Epi significa após, posterior a…) pensa depois. O primeiro de certo modo antecipa o futuro (por isso avisou o irmão de que não deveria aceitar qualquer presente dos deuses); Epimeteu arrisca (por isso ignorou o conselho do irmão, aceitando em casamento Pandora, um envenenado presente dos deuses).

      A nossa sessão terminou com uma faixa da banda sonora de Oppenheimer, um filme sobre Oppenheimer, o Prometeu americano. Também ele roubou o fogo nuclear — e depois viu o mundo arder.

      No vídeo, aparece o “desabafo” (“roubado” a Bhagavad Gita, escritora hindu) proferido pelo cientista quando presenciou o primeiro teste nuclear, em 1945, em Trinity: Agora tornei-me a Morte, a destruidora de mundos.

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