Há livros que nos fazem despertar imagens e sentidos e com eles melhor entender a nossa condição de humanos. São verdadeiras sementes que em nós crescem e nos fazem crescer. Dentre eles destaco O Velho e o Mar de Hemingway.

Aceito que serão muitas as “leituras” dessa história: um velho pescador que acaba por apanhar o maior espadarte que alguma vez vira. Prende-o ao seu barco, mas o peixe acaba por ir desaparecendo ao ataque de esfomeados tubarões.
O Velho e o Mar — a existência humana
Podia falar no simbolismo da solidão do velho entregue a si próprio. Vejo, contudo e também, nesse pescador o ser humano e nesse peixe a melhor vida que procura e o próprio universo que lhe serve de berço. Talvez não seja por acaso que se trata de um velho pescador. Mas não é tanto pela sua longeva ancestralidade, antes pelo facto de carregar já nas suas costas com múltiplas experiências de vida, muitas delas contrárias ao sucesso de agarrar o seu peixe.
Ao longo desta sua “pesca” o homem mais depressa agarra em armas para matar o vizinho do que aceita uma conciliação. Tal como o velho pescador, o Homem raramente conseguiu pescar essa melhor vida. A sua faina é demasiadas vezes infrutífera. Contudo, há evolução humana e o homem consegue outras vezes agarrar esse grande peixe, epítome do seu êxito, e emociona-se com ele, compara-se a ele e, nessa sua alegria, há uma elevação espiritual que o faz perguntar-se se será merecedor dele e se o não deve largar.
Não o faz num misto de necessidade e orgulho — e tal como o pescador o homem prende-o a si, como se fosse o único digno protetor, esquecendo as mordidelas de outros famintos seres que à sua volta parasitam e esquecendo a passagem do próprio tempo.
Os tubarões…
Na vida humana individual, todos conhecemos alguns tubarões que pela sua força e esperteza se aproveitam e lucram com o nosso esforço e trabalho. Os tubarões que vão comendo a melhor vida do pescador são os que na vida humana o exploram e lucram com a sua mais valia; até que surja um mundo onde todos respeitem o peixe de cada um, tal é uma inevitabilidade, para além de que mesmo nesse utópico mundo, o próprio homem acabará por desaparecer, atenta a sua mortalidade.
Numa visão mais holística a perecibilidade do mundo é também ela uma inevitável fatalidade. No Sol o hidrogénio irá acabar e com isso terminará a fusão e transformação em hélio, pelo que esse nosso astro, atualmente na sua meia idade, irá no futuro transformar-se numa gigante vermelha e engolir a Terra, que, a não ter desaparecido antes, desaparecerá então.
Tal como o velho pescador olhamos para as espinhas da nossa existência reconhecendo que a nossa carnalidade, tal como esse espadarte, um dia irá desaparecer. Mas, até lá, senti-lo preso ao nosso barco talvez seja a ilusão que merecemos.

Este é o segundo texto de uma série sobre livros que vale a pena ler. O primeiro, de Elisa Rodrigues, convida-nos a ler A Máquina de Fazer Espanhóis.
The old man and the sea, leitura obrigatória nos tempos de estudante, relido nos finais da pandemia, é de facto um hino à vida e à perseverança. História simples, curta e cheia de motivos para reflexão.
Gostei da interpretação que fazes dela.
The old man and the sea, leitura obrigatória nos tempos de estudante, relido nos finais da pandemia, é de facto um hino à vida e à perseverança. História simples, curta e cheia de motivos para reflexão.
Gostei da interpretação que fazes dela.