Tintinnabuli

A sessão de A Arte de Pensar e de Sentir de 5 de março de 2026 teve como temas centrais

  • a distinção entre termo e conceito;
  • o conceito de definição.

Para tentar uma definição implícita ostensiva do estilo tintinnabuli (e refletir sobre o valor — utilidade e limitações — da definição implícita ostensiva), ouvimos parte de Spiegel im Spiegel, uma obra do criador do estilo tintinnabuli, o compositor estoniano Arvo Pärt.

Tintinnabuli

O estilo tintinnabuli (o nome vem do latim “tintinnabulum”: “pequeno sino”) evoca o som claro e ressonante de sinos. A técnica assenta em duas vozes prinicpais (elementos) que coexistem em diálogo constante:

  • a voz melódica que se move passo a passo seguindo as notas da escala;
  • outra voz (a tintinnabuli) que se limita às notas do acorde tónico, como um sino que vibra.


O resultado é uma música muito simples, lenta e meditativa.

A técnica assenta em dois elementos que coexistem em diálogo constante: a voz melódica (M-voice), que se move por graus conjuntos seguindo as notas da escala, e a voz tintinnabuli (T-voice), que ressoa apenas as notas do acorde tónico, como um sino que vibra. Enquanto a voz melódica representa o humano — o movimento, a busca, o erro —, a voz tintinnabuli representa o divino, o imutável, o absoluto. A complexidade não está na densidade, mas na pureza extrema.

Tintinnabuli e Spiegel im Spiegel

Em Spiegel im Spiegel (1978) — espelho no espelho, em alemão — esta dualidade torna-se quase transparente. O piano estabelece um arpejo contínuo, percorrendo as notas do acorde em padrões regulares e hipnóticos: é a voz tintinnabuli, o fundo eterno. O violoncelo (na gravação que se segue; mas poderia ser outro instrumento solista: no Youtube encontra, por exemplo, o violino) desliza por cima em frases longas e lentas, subindo e descendo por graus, sempre simétricas, sempre especulares — a voz melódica, humana e contemplativa.

O título evoca o efeito de dois espelhos frente a frente: cada reflexo contém outro reflexo, infinitamente. A música não avança para lado nenhum — ela aprofunda-se no próprio lugar onde está.

Para a ilustração poderiam servir outras obras de Arvo Pärt (ainda que Spiegel im Spiegel me tenha parecido aquela em que o estilo é mais percetível):

  • cheguei a pensar em Für Alina (1976), considerada por Pärt como o primeiro exercício da técnica. A distinção entre as duas vozes é muito menos evidente do que em Spiegel im Spiegel; elas são feitas por cada uma das mãos.
  • ou em Fratres, que aplica a técnica de forma mais austera e obsessiva. Existe em inúmeras versões — talvez de forma mais proeminente nas suas versões para violino, orquestra de cordas e percussão e para violino e piano. A maioria das outras versões é muito semelhante a estas duas: por exemplo, as versões para viola e piano e violoncelo e piano são quase idênticas à primeira, enquanto a versão para quarteto de cordas é mais semelhante à segunda. A primeira versão para quinteto de cordas e quinteto de sopros foi escrita em 1977.

Für Alina

Fratres

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