Quem tem o poder?

A segunda sessão de A Arte de Pensar e Sentir do ano letivo de 2026/7 foi criada a partir de seis propostas musicais de alguns “alunos”, seis canções para pensar e sentir. Embora diversificadas, por não ter havido coordenação, a interrogação do título bem poderá ser o elemento comum a todas: Quem tem o poder?

Quem tem o poder?

A questão colocada no final da audição de cada uma (previamente justificada por cada proponente) foi esta: o que têm em comum seis canções tão diferentes: um rap sobre as redes sociais, uma figura misteriosa, uma canção sobre Deus, uma maré que se levanta, um hino ao poder das pessoas e uma composição instrumental aparentemente caótica?

À primeira vista, pertencem a universos muito distantes. No entanto, todas nos convidam, de maneiras distintas, a pensar sobre o ser humano, a sociedade e o lugar que ocupamos no mundo.

Quem tem o poder?

Será Deus, a sociedade, as convenções, as figuras que nos inspiram medo ou as pessoas que, unidas, podem transformar a realidade? E que poder temos nós sobre a nossa própria vida?

Estas perguntas importam porque nos obrigam a questionar o que muitas vezes aceitamos sem pensar. O que significa ser livre? Quem decide o que é uma vida perfeita? Podemos mudar a sociedade ou somos sobretudo moldados por ela? Porque nos fascinam as figuras que parecem exercer um poder absoluto sobre os outros?

Pensar começa, muitas vezes, quando deixamos de tomar as coisas como evidentes e começamos a interrogá-las. A música pode ajudar-nos nesse caminho: não precisa de apresentar argumentos rigorosos nem de oferecer respostas definitivas. Pode sugerir ideias, contar histórias, provocar emoções ou colocar-nos perante contradições.

Há ainda outra possibilidade: a música pode comunicar o que as palavras não explicam por completo. Em Red Right Hand, a ameaça está tanto na voz grave e no andamento lento como no que a letra conta. Em G-Spot Tornado, de Frank Zappa, não há uma única palavra, e no entanto sentimos a vertigem, o excesso, uma ordem que parece prestes a desfazer-se. Uma melodia, um ritmo, uma voz ou uma dissonância despertam inquietações que ainda não sabemos formular.

Pensar e sentir o poder

Talvez o elo mais profundo entre estas seis canções seja este: todas, cada uma a seu modo, nos desafiam a pensar e a sentir o poder. O poder que desejamos, o da aprovação e da imagem perfeita, em O Quadrado Perfeito. O poder que nos domina, na figura inquietante de Red Right Hand. O poder que está acima de nós, e a pergunta de como seria se Deus fosse apenas mais um entre nós, em One of Us. O poder que podemos exercer, na maré que se levanta em Maré Alta e em People Have the Power. E o poder da própria arte: G-Spot Tornado soa a caos, mas é uma peça escrita com enorme rigor, e deixa-nos a pergunta de a quem pertence a ordem, a quem a compôs ou a quem a escuta.

Não se trata de encontrar uma resposta única, mas de aprender a fazer melhores perguntas.

Terminámos com a Ode à Alegria, de Beethoven, e vale a pena ouvi-la à luz de tudo o que ficou. Depois de seis canções que interrogam o poder, chega uma música que sonha com uma humanidade unida, a partir do poema de Schiller que Beethoven musicou. Não responde às perguntas, mas propõe uma direção: a do poder que nasce de estarmos juntos.

Ao escutarmos, vale a pena perguntar: que ideia está aqui em jogo? Que visão do ser humano nos é apresentada? Concordamos com ela? E o que sentimos ao ouvir esta música que talvez não conseguíssemos explicar apenas com palavras?

Afinal, escutar também pode ser uma forma de pensar, e de sentir.

Para voltar a ouvir

  1. Capicua – O Quadrado Perfeito
  2. Nick Cave and the Bad Seeds – Red Right Hand
  3. Joan Osborne – One of Us
  4. Sérgio Godinho – Maré Alta
  5. Patti Smith – People Have the Power
  6. Frank Zappa – G-Spot Tornado

Para fechar: Ludwig van Beethoven – Ode à Alegria (4.º andamento da Sinfonia n.º 9)

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