“Caminho do céu”: a máscara da desumanidade

Tudo o que se vê é prova do que existe? Juan Mayorga escreveu Caminho do Céu a partir de episódio real: um delegado do Comité Internacional da Cruz Vermelha ilibou indiretamente os nazis das condições no gueto de Terezín (Theresienstadt).

"Caminho do Céu"

Mayorga é espanhol, formado em filosofia, matemática e dramaturgia, e tem uma vasta obra teatral. Esta peça estreou em 2003 e foi editada, em conjunto com mais outras duas do autor, nos Livrinhos de Teatro dos “Artistas Unidos”.

O primeiro ato é um monólogo. Desconhecemos o nome da personagem, enquanto vamos descobrindo o seu relato sobre este episódio do seu percurso de vida. Logo de início, traduz uma palavra alemã que significa Caminho do Céu — expressão que dá título à peça.

A personagem situa-se no mesmo local onde esteve em 1942, a 30 km de Berlim, em plena Segunda Guerra Mundial. Era delegado da Cruz Vermelha, função a que se entregava de coração, movido pelo desejo de “fazer alguma coisa pelas pessoas”. As visitas aos campos de prisioneiros de guerra tinham objetivos claros: garantir o cumprimento dos tratados internacionais, verificar as condições de higiene e de alimentação. A missão era clara.

Mas o que pode falhar numa missão destas?

O seu monólogo descreve as dificuldades, a malícia e as astúcias necessárias para obter autorização para visitar um campo de civis. Quando finalmente o consegue, é recebido por um comandante alemão —amável, culto e viajado. No campo, é guiado pelo judeu Gottfried, que lhe permite fotografar o que quiser.

Passam pela praça, pela estação — onde os comboios chegam às seis da manhã —, admiram o relógio, passam diante do hangar, que serve de enfermaria. Ao caminho que leva até lá chamam “Caminho do Céu”. Há crianças, um casal de namorados, velhos e vendedores de balões. Sente silêncios, olhares estranhos. Mas precisa de um sinal!

O seu guia fala como um autómato. “Mexem-se desajeitadamente, com insegurança”: tem algumas suspeitas, mas atribui a estranheza a características do próprio povo judaico. Aquela cidade, segundo o comandante, é conhecida como “Zona de Repovoamento Judaica”.

Espera um sinal, um pedido de ajuda. Mas não vê nada: nem fumo, nem fornos, nem comboios, nem cinzas. Não vê homens esqueléticos.

Para além das aparências…

No relatório da visita escreve que as condições são satisfatórias, “modestas e dignas”. “Não viu nada de anormal; logo, não podia inventar o que não tinha visto.” “Não exagerou, não inventou”.

Não mentiu — mas confiou apenas no que viu, ignorando todos os sinais subtis. Seríamos capazes de cometer o mesmo erro — não ver para além das aparências?

A partir deste primeiro ato, convido-vos a imaginar a continuação da peça: como foi possível ocultar a verdade a um funcionário da Cruz Vermelha?

Outra forma de descobrir este texto perturbador é através do espetáculo que estará em breve no Teatro Viriato, em Viseu, com encenação de Rita Cabaço, uma personalidade forte e marcante nas artes de palco contemporâneas.

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